A visita de Bento XVI ao Brasil nas palavras de dom Raymundo Damasceno

Luiz Felipe Bolis – Vatican News

A Igreja e o mundo choram a perda de Bento XVI, mantendo vivas as esperanças de que o Papa emérito intercede por seus filhos no Reino dos Céus. Tristeza e alegria preencheram o vazio dos cerca de 200 mil corações que pisaram na Cidade do Vaticano para um último adeus àquele que foi Papa da Igreja Católica e Bispo de Roma entre 19 de abril de 2005 e 28 de fevereiro de 2013, eternizado como homem de grandes virtudes na memória de dom Raymundo Damasceno Assis, arcebispo emérito de Aparecida.

“Quem conviveu mais de perto com o Papa Bento XVI percebia nele um homem muito competente e muito sábio do ponto de vista teológico, pastoral. Sempre muito disposto à escuta. Como ele mesmo disse quando assumiu a Congregação para a Doutrina da Fé: ‘estou aqui para escutar a Igreja, estou aqui para escutar meus assessores, estou aqui para escutar a palavra de Deus, estou aqui para rezar e para tomar as decisões que forem necessárias, em comunhão com o papa’, que na época era São João Paulo II”, comentou dom Raymundo Damasceno.

O arcebispo emérito de Aparecida recorda-se dos tantos encontros presididos pelo então cardeal Joseph Ratzinger no passado, antes de assumir o seu Pontificado. “Ficávamos impressionados, porque o Ratzinger sempre esclarecia tudo, explicava, atendia às perguntas, ouvia, e a gente saía feliz e contente porque realmente era uma visita frutuosa e porque os problemas ou as questões que a gente levava até ele eram respondidas dentro da sua agenda com muita paciência, tranquilidade, sem nenhuma pressa. Nunca vi Bento XVI, mesmo como papa e nem como cardeal, estar olhando o relógio para perceber quando estava terminando a reunião”, pontuou o arcebispo brasileiro.

Em 2007, quando Bento XVI visitou o Brasil - a primeira viagem intercontinental do seu Pontificado -, ele foi recebido por dom Raymundo Damasceno para a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (CELAM) em Aparecida/SP, ocorrida entre 09 e 14 de maio daquele ano. Acolhido na Conferência com bastante afeto por peregrinos e participantes, Bento XVI deixou um legado importante ao povo brasileiro, ao ver do arcebispo emérito, a exemplo das suas palavras de Papa nas linhas do Documento de Aparecida. Vale lembrar que na mesma ocasião Bento XVI canonizou Santo Antônio de Sant’Ana Galvão (Frei Galvão), sacerdote e religioso franciscano, primeiro Santo nascido no Brasil.

“Papa Bento XVI estava sempre disposto a escutar, a ouvir, e assim foi ele também em Aparecida, com aquela tranquilidade dele no Seminário. Visitou a Fazenda da Esperança, onde foi muito bem acolhido. A imagem dele abraçando as crianças percorreu o mundo todo. Depois o terço em Aparecida, na véspera da abertura da V Conferência, a celebração eucarística da Conferência, no dia 13 de maio, depois o discurso famoso que ele fez ao abrir a Conferência, ali no subsolo do santuário no dia 13/05, por volta das 16h. Um discurso que realmente imprimiu uma orientação na reflexão da V Conferência, que resultou evidentemente no trabalho dos bispos no Documento de Aparecida, no qual o Papa Francisco tomou como base até para elaborar a sua Encíclica Evangelii Gaudium”, citou dom Raymundo Damasceno.

Após longas décadas de encontros com o “Cooperador da Verdade”, o arcebispo emérito de Aparecida dirigiu uma última palavra de saudade a Bento XVI na Cidade do Vaticano e um último olhar diante do corpo visitado entre os dias 02 e 04 de janeiro de 2023. “Eu presenciei, participei dos funerais e vi uma grande expressão do afeto dos cardeais a Bento XVI, que faleceu e foi sepultado na quinta-feira passada. É uma expressão de pesar, de solidariedade, mas ao mesmo tempo também de reconhecimento e de gratidão a Deus pelo o que representou o seu Pontificado para a Igreja em todo o mundo”.

Dom Damasceno viu partir um amigo, um irmão e um pai no qual, diante de todas as fases e cargos ocupados em que pôde acompanhá-lo, sempre enxergou a figura de um homem organizado, disciplinado, trabalhador, simples, humilde e bondoso. O amor a Bento XVI, a admiração pelos seus passos enquanto professor, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e em seguida como Papa, acrescentado ao dever moral de presenciar os funerais daquele que visitou a sua Arquidiocese em 2007, conduziram dom Raymundo Damasceno às últimas homenagens ao Papa emérito em Roma. Para muitos pode parecer o fim de uma era, mas o arcebispo emérito de Aparecida mantém acesa a expectativa de que seja apenas o início de uma intensa evangelização a partir dos frutos de Bento XVI.

 
Indique a um amigo